Atenção e interesse: a importância das relações sociais nos primeiros mil dias

Durante os primeiros mil diasperíodo que soma os 270 dias da gestação aos 730 dias até que o bebê complete dois anos de idade – o bebê depende de adultos, que o alimentam, trocam suas fraldas, dão banho e suprem suas necessidades fisiológicas. Entretanto, os cuidados que um bebê exige nessa fase vão muito além do físico.

Por isso, a presença de adultos interessados no desenvolvimento da criança é fundamental não só para que ela fique saudável, mas também para que desenvolva suas capacidades emocionais, motoras e relacionais – um processo que começa ainda na gestação. “Evidências científicas da neurociência mostram que o feto sente as manifestações emocionais da mãe através de hormônios, por exemplo. Precisamos trabalhar a mentalização dela (mãe), o desenvolvimento da maternidade, desde a gestação”, explica Anna Chiesa, consultora técnica da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV).

Primeiros três meses: a gestação estendida

Anna, que é enfermeira, e professora livre-docente da Universidade de São Paulo (USP),  explica que os primeiros três meses de vida têm sido chamados de “o quarto trimestre da gestação”. Durante a gravidez, o feto recebe tudo de forma passiva: alimento, oxigênio e sensação de bem-estar sem precisar fazer nada. Quando nasce, o bebê humano é o mais dependente dentre os mamíferos. Ele não consegue se locomover até a mama para se alimentar, por exemplo. “Ele até nasce com uma espécie de carga de proteção, o vernix, aquele sebinho que o cobre. Se ele nascer no meio do mato, poderia sobreviver algumas horas. Mas a proteção não dura muito”, diz Anna.

Quando sente fome, frio, medo ou qualquer outra sensação desagradável, precisa acionar alguém por meio do choro. Na maioria das vezes, quem o atende é a mãe ou o pai. Como o bebê já reconhece o batimento cardíaco da mãe, assim como a voz dos pais, vai formando uma memória de satisfação toda vez que tem suas necessidades atendidas por essas pessoas.

primeiros mil dias

“Isso é muito importante para que a criança desenvolva autoestima, segurança. É nesse primeiro contato que ela vai reconhecer o novo ambiente e como as coisas funcionam dentro dele”, diz Anna. Os cuidados não se restringem apenas ao físico, mas também ao emocional. É importante dar colo, transmitir carinho e aconchego. “A criança gosta muito do contato com a pele. A conexão é importante para transmitir segurança ao bebê”, afirma Anna.

Cuidado estendido

Apesar de a atenção dos pais ser fundamental, o desenvolvimento na primeira infância é fruto também da interação da criança com o meio. Ao interagir com mais pessoas, o bebê desenvolve habilidades motoras, cognitivas, sociais e de linguagem. Um processo que se dá tanto na família estendida (avós, tios, primos) quanto na escola.

Como o desenvolvimento se dá a partir das experiências e do ambiente, conviver com uma avó que canta ou com um avô que desenha, por exemplo, pode suscitar interesses muito específicos e promissores. Uma professora boa contadora de história pode despertar um futuro leitor.

Tudo isso, no entanto, deve ser feito de forma a respeitar a segurança e os hábitos dessa criança.“A primeira recomendação é que haja uma permanência no cuidado. O que é feito na casa dos pais deve ser feito do mesmo jeito na creche, berçário ou casa dos avós”, explica Anna. “A permanência é uma condição muito boa para a criança, pois a ajuda a construir visão de previsibilidade e organização.”

Afinal, a soma dos cuidados físicos com os estímulos sociais é que farão com que o bebê tenha uma evolução gradativa e, logo, maior potencial de desenvolvimento integral.

 

BibliogafiaDesenvolvimento se dá pela interação e pelo vínculo. Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. 2017

Early childhood development: the foundation of sustainable development. The Lancet, Vol. 389, No. 10064