O desenvolvimento do cérebro nos primeiros mil dias

Durante os primeiros mil dias do bebê, que se iniciam na gestação e se estendem até os dois anos de vida da criança, o cérebro evolui como em nenhuma outra época da vida. Nesse período, as células cerebrais podem fazer até mil novas conexões a cada segundo – uma velocidade única na existência do indivíduo. Por esse motivo, essa é considerada uma janela crucial de oportunidade para o desenvolvimento humano.

“É a partir dessas bases que o indivíduo vai se desenvolver em seu potencial máximo de acordo com suas habilidades”, explica Filumena Gomes, pediatra do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Esse período é responsável por:

– Desenvolvimento das habilidades motoras.

– Desenvolvimento de funções como visão, audição e olfato.

– Desenvolvimento da cognição, como as habilidades para matemática e para leitura.

– Desenvolvimento das funções executivas, como atenção e memória do trabalho, controle inibitório e capacidade de resolver problemas.

– Autorregulação e comportamento.

– Resiliência ao estresse e plasticidade do neurodesenvolvimento.

– Saúde mental e suscetibilidade a desordens psiquiátricas.

– Capacidade de aprendizado educacional e escolar.

desenvolvimento do cérebro

Cuidados durante a gravidez

Como o cérebro do bebê começa a se desenvolver ainda na gestação, é importante que a mãe tome alguns cuidados. O primeiro deles é com relação à manutenção do peso. Para isso, recomenda-se que a gestante seja acompanhada por um médico, que irá avaliar se ela e o bebê estão ganhando peso dentro dos limites normais e se o seu IMC (Índice de Massa Corporal) está adequado.

Doenças como diabetes, anemia e deficiências de vitaminas e sais minerais podem prejudicar o feto. Por isso, a mãe deve manter uma dieta equilibrada e saudável.

Filumena ainda acrescenta que fatores ambientais e hereditários também podem impactar o desenvolvimento do cérebro do bebê durante a gestação. Mulheres que vivem em situação de pobreza ou carência, não têm acesso a serviços de saúde de qualidade e vivem em más condições sanitárias estão expostas à desnutrição, doenças, toxinas e poluição. Além disso, é muito comum que elas tenham o emocional prejudicado pelo estresse, falta de sono e possível depressão – o que ainda pode levar ao abuso de medicamentos ou drogas. Tudo isso, pode prejudicar o desenvolvimento do bebê.

Grávidas que vivem em locais onde há violência, desastres naturais ou migração forçada também correm maior risco de que os filhos apresentem problemas no desenvolvimento cerebral.

Cuidados com o bebê

Assim que nasce, o bebê requer uma atenção ampla e multifatorial para que o desenvolvimento cerebral se dê em toda a sua potencialidade.  O primeiro cuidado é o nutricional. “A nutrição é um dos pilares do neurodesenvolvimento do bebê”, afirma Filumena. A pediatra destaca a importância do aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e a alimentação adequada posteriormente.

Além da nutrição, o bebê deve crescer em um ambiente equilibrado e livre de estresse. “O bebê se desenvolve estabelecendo vínculo e afeto com a mãe ou cuidador. Ele precisa sentir que tem um lugar na família e que essa família se adapta para recebê-lo”, diz.

Um estudo da Universidade de Washington demonstrou que parte do cérebro relacionada à memória, aprendizagem e autocontrole, denominada hipocampo, cresce duas vezes mais rápido nas crianças que recebem mais apoio emocional da mãe.

Por fim, Eduardo Marino, gerente de conhecimento aplicado da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), destaca o quanto as experiências e a qualidade das relações estabelecidas durante a primeira infância são cruciais para o desenvolvimento do cérebro.

“Nesse período, o cérebro apresenta mais atividade e plasticidade. Todas as experiências vividas e estímulos são absorvidos e vão construindo a arquitetura do cérebro da criança”, diz. “Se exposta a estímulos positivos adequados que trabalhem as habilidades motoras, adaptativas e socioemocionais, aumenta-se a chance de a criança apresentar maior aptidão intelectual e relações sólidas e mais equilibradas”, finaliza.

Portanto, desde a gestação até o aniversário de dois anos, cada segundo de vida dos bebês é um momento crucial de aprendizagem, crescimento e desenvolvimento. É dever da sociedade toda – dos pais ao poder público – propiciar que cada criança tenha acesso ao necessário para que ela se desenvolva em toda a sua potencialidade.

 

BibliografiaOrganização Mundial da Saúde, Unicef, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal